Fatias de Parida



Mais para o Sul e Sudeste do país atende pelo não mais charmoso nome de Rabanada, e tem data certa para figurar nas mesas, no Natal. Já para as bandas do Nordeste, atende por Fatia de Parida, e é muito mais popular e presente nas mesas dos cafés da manhã nordestinos durante todo o ano, e justamente por isso quase não aparece em nossas ceias natalinas, pois seria como chover no molhado.

A Rabanada é mais metida a besta, até porque precisa de uma dose maior de glamour para entrar no rol da ceia natalina, daí que eu já vi mil versões com inclusão de licores e geléias e coisas que tais em sua composição.

Mas por que Fatia de Parida? Bem, porque reza a lenda que tal guloseima seria muito recomendada na dieta das recém-paridas em resguardo.

Fazer Fatia de Parida é muito simples: basta cortar o pão francês dormido em rodelas, deitá-las numa fôrma, hidratá-las com leite, depois passá-las em ovos peneirados e ligeiramete batidos, fritá-los em óleo quente (fui de Canola), escorrê-los e envolvê-los em açúcar e canela.

Você terá uma massa crocante por fora, macia por dentro, e levemente adocicada, que cai muito bem com um leite morno naqueles dias em que precisamos de um afago.

Mas agora a minha história por trás destas fatias...

Eu estava num mercado perto de casa comprando alguns poucos ítens; quando já na fila há algum tempo, vi um amigo parado com um saco de pão nas mãos, olhando para a fila enorme, e provavelmente refletindo se valeria a pena encarar aquele caos por um pacote contendo 5 pães franceses. Acenei para ele e me propus a pagar pelo seu pão, pois se não o fizesse, seria o mesmo que furar a fila, e haveria outro registro de pagamento, bla bla bla. Ele titubeou, mas acabou concordando. Daí começamos um enorme tricô, ele me ajudou a empacotar as compras, enfiou o dinheiro no meu bolso, e perguntou se eu não queria uma carona; eu falei que estava pertinho de casa, mas ele insistiu. O tricô deu uma colcha até a minha casa, desci, peguei as minhas compras, nos despedimos e seguimos nossos percursos. Uma vez em casa, alguns minutos depois, arrumando as compras, qual não foi a minha surpresa ao perceber que havia dois pacotes de pão! Eu havia trazido a sacola do pobre! Ô meu pai! Liguei para ele meio arrasada, meio divertida, e ele já atendeu gargalhando! Disse que era para eu ficar tranquila, pois ele já estava tomando café em casa de amigo, em mesa muito bem guarnecida de pães de todas as categorias. Eu falei: e agora? O que eu faço com tanto pão? Vou ter que fazer fatia de parida para o café! Ele falou: Pois faça! Fatia de parida é luxo! Foi a deixa que eu precisava para retornar-lhe o pão em forma de fatias de parida, que deixei hoje pela manhã em seu local de trabalho.



E acabou-se a história.